Crescimento evangélico altera hábitos musicais e sociais na cidade onde antes reinava o axé e o samba-reggae
Salvador vive uma verdadeira revolução cultural. Segundo o Censo 2022 do IBGE e uma pesquisa divulgada em abril de 2024 pelo DataSenado em parceria com o Ministério da Cultura, o gênero gospel se tornou o mais ouvido pelos moradores da capital baiana, superando estilos como axé, samba-reggae e até mesmo a popular MPB.
De acordo com a pesquisa “Cultura nas Capitais”, a música gospel é a preferida de 28% dos soteropolitanos, seguida por MPB (24%), sertanejo (19%) e pagode (19%). O dado chama atenção especialmente por ocorrer em uma cidade historicamente ligada às manifestações culturais de matriz afro, como o axé e o samba-reggae, que sequer figuraram entre os estilos mais citados.
O fenômeno está diretamente ligado ao crescimento da população evangélica em Salvador, que vem aumentando significativamente nas últimas décadas. Essa mudança demográfica está refletindo nos hábitos cotidianos da população, na estética urbana e, principalmente, no consumo cultural.
“O gospel saiu das igrejas e entrou no cotidiano das pessoas”
O cantor e compositor Marcos Semeadores, conhecido por seu trabalho com o pagode gospel, afirma que essa nova realidade musical em Salvador é um reflexo da busca das pessoas por algo mais profundo.
“Isso mostra que o evangelho está ultrapassando as paredes dos templos. Muita gente que nem frequenta igreja ouve música gospel. Elas estão buscando paz, uma palavra de consolo, de esperança. E a música é o caminho mais direto até o coração”, afirma Marcos em entrevista ao G1.
Ele observa ainda que a qualidade das produções e a variedade de ritmos dentro do gospel têm atraído não apenas cristãos, mas também o público secular. “Hoje o gospel está no carro, no churrasco, no fone de ouvido do trabalhador. Está nas redes sociais, com clipes bem produzidos e letras impactantes.”
Ferramenta de evangelização e expressão cultural
Para o ex-pastor da Igreja Batista Nazareth, Joel Zeferino, que atuou por duas décadas em Salvador, a música gospel se consolidou como uma importante ferramenta de evangelização.
“A música tem um poder de penetração cultural enorme. Muitos que nunca foram a uma igreja já foram tocados por uma canção gospel. Esse ambiente musical que os evangélicos criaram em Salvador tem transformado a cidade”, explica Zeferino.
Ele ressalta que, diferente do estereótipo de um grupo fechado e distante da cultura, os evangélicos baianos têm se mostrado cada vez mais ativos, criativos e influentes no cenário cultural da capital.
A ausência de apoio público
Mesmo diante dessa força crescente, os artistas e produtores do segmento enfrentam desafios. Segundo Bispo Oliveira, organizador de eventos cristãos em Salvador, ainda há resistência por parte do poder público em apoiar iniciativas da comunidade evangélica.
“O poder público precisa entender que os evangélicos também consomem cultura, mas não participam de festas seculares como Carnaval, São João ou festas de largo. Eles também têm direito ao lazer e à expressão cultural”, destaca o produtor.
Como alternativa às festas juninas, ele organiza o evento “Sem João, com Jesus”, que vem ganhando força entre os cristãos da capital. “Não se trata de desprezar a cultura local, mas de oferecer uma opção baseada nos nossos valores. Jesus é a nossa referência maior”, enfatiza.
Uma nova Salvador está surgindo
Os números e relatos apontam para uma transformação silenciosa, mas profunda. O crescimento dos evangélicos em Salvador não está apenas dentro das igrejas. Ele está nas ruas, nas rádios, nas redes sociais — e, agora, nas estatísticas culturais da cidade.
Essa mudança, longe de anular a diversidade cultural baiana, soma novas vozes ao cenário, abrindo espaço para uma Salvador mais plural, onde fé e arte caminham juntas.

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